por Cláudio Lasas
De
acordo com o Yoga, o corpo nos ajuda a atingir a iluminação e, por isso, os iogues
preocupam-se com a saúde, praticando relaxamento adequado, exercício adequado,
respiração adequada, pensamento adequado e dieta adequada. A alimentação é,
portanto, um dos pilares dessa tradição milenar, com o objetivo de dar ao corpo
nutrientes de boa qualidade e purificá-lo de toxinas, mantendo o bom
funcionamento de células, órgãos e tecidos.
O
praticante costuma observar alguns preceitos durante as refeições:
- Em
primeiro lugar, comer com consciência e tranquilidade, adotando uma atitude
pacífica e silenciosa, porque dessa forma é mais fácil perceber quando já se comeu
o suficiente. Diz-se que a cada refeição devemos comer apenas o que cabe nas
palmas de nossas mãos. No mesmo sentido, devemos comer regularmente, mas
somente quando tivermos fome, adotando a máxima de "comer para viver, não
viver para comer".
-
Respeitar o alimento e perceber que sua energia será absorvida pelo corpo.
Nosso corpo físico é chamado, em sânscrito, de corpo de alimento, nome que
enfatiza que somos o que comemos. Alimentos sem energia vital (prana) como a carne são evitados, como
veremos adiante. Mesmo ao cozinhar, nossas emoções são transmitidas ao alimento
e por isso devemos estar em paz no momento do preparo das refeições.
-
Hábitos que dificultam a digestão são evitados: comer frutas nas grandes
refeições, ingerir leites ou alimentos pesados à noite, tomar muito líquido
durante as refeições principais, tomar água gelada, mastigar mal, comer muito,
combinar mais que 5 comidas diferentes por refeição etc.
-
Jejuar um dia por semana, para que o corpo possa livrar-se de toxinas e
resíduos - não é um jejum completo, mas parcial, com ingestão de alimentos bem
leves.
O
Yoga acredita que o universo como um todo é formado pela combinação de três gunas ou qualidades da matéria: rajas, tamas e sattva. As escrituras ioguicas dividem portanto também
os alimentos em rajásicos, tamásicos e satívicos.
Rajas é a qualidade do que é estimulante
e por isso os alimentos rajásicos trazem inquietude, despertam paixões e
destroem o equilíbrio entre corpo e mente, impedindo a meditação. Fazem parte
desse grupo cebola, alho, sal, temperos fortes, café, chá, tabaco, alimentos
industrializados, açúcar refinado, refrigerantes e chocolate ("os homens
rajásicos preferem o que é amargo, azedo, ardente, picante, bem salgado e
fortemente temperado, que lhes excite o apetite e estimule o paladar, porém
que, finalmente, lhes acarrete moléstias, dores e enfermidades." Bhagavad-Gitâ
17-9).
Tamas é o guna da inércia. Alimentos
tamásicos são impuros ou podres, não contêm prana
e por isso deixam o corpo pesado e lento demais para pensar com clareza,
causando preguiça e aborrecimento. São exemplos desse grupo carne, peixe, ovos,
cogumelos, alimentos embalados ou cozidos demais, fermentados, queimados,
fritos, assados, requentados, vencidos, alimentos com conservantes, álcool e
drogas. Comer muito também é considerado tamásico ("aos homens tamásicos
apetece alimento rançoso, estragado, insulso, putrefato, corrompido e ainda as
sobras de comida e outras imundícies." Bhagavad-Gitâ 17-10).
A
dieta ioguica privilegia portanto os alimentos satívicos, integrais e
deliciosos naturalmente, sem conservantes ou corantes artificiais, que trazem
pureza, acalmam a mente e aguçam o intelecto. Diferentemente do que se possa
pensar, há um grande número de opções neste grupo, que inclui frutas frescas e
secas, vegetais crus ou apenas levemente cozidos, saladas, grãos, legumes,
nozes, sementes, pães integrais, mel, ervas frescas, laticínios (o único grupo
de alimentos de origem vegetal que em geral faz parte da dieta ioguica, que é
por isso lacto-vegetariana), sucos de frutas e chás de ervas. Facilmente
digeridos e dando muita energia, esses alimentos aumentam nossa vitalidade,
força e resistência, eliminam o cansaço, mesmo para quem desempenha trabalhos
extenuantes ("o alimento mais agradável ao homem puro é aquele que aumenta
a vitalidade, o vigor, a saúde, preserva da doença e traz o contentamento e a
calma de espírito. Tal alimento tem bom sabor, mata a fome, não é nem demasiado
amargo, nem demasiado azedo, nem salgado demais, nem muito quente, picante ou
adstringente." Bhagavad-Gitâ 17-8).
A
escolha dos alimentos reflete o nível de evolução do iogue. Entretanto, aqueles
que, apesar de ainda terem o hábito de consumir muitos alimentos rajásicos ou
tamásicos, almejam melhorar sua alimentação, devem ter paciência para promover
mudanças lentas e graduais em sua dieta, a fim de que a mudança não se
transforme em frustração.
Limpezas
O
Yoga possui diversos kryias, ou seja,
práticas de limpeza e purificação. Muitos ásanas
(as conhecidas posturas de hatha yoga)
massageiam órgãos vitais e estimulam os movimentos peristálticos, contribuindo
assim para uma boa digestão, facilitando a eliminação pelo corpo de toxinas e
promovendo uma melhor circulação de energia. O nauli, por exemplo, é uma automassagem da região abdominal. Tudo
isso se coloca como um contraponto à ociosidade e à poluição, típicos da vida
moderna nas grandes cidades, que tornam nosso corpo lento e sobrecarregam nossos
rins e fígado.
O
próprio jejum semanal é considerado uma limpeza, uma vez que dá ao nosso
organismo tempo suficiente para digerir os alimentos, assimilar o que é útil e
eliminar excessos, aumentando a eficiência do organismo.
Vegetarianismo

Nem
todo iogue é vegetariano, mas há vários aspectos na tradição que o conduzem ao
vegetarianismo ou, pelo menos, a uma drástica redução no consumo de carne.
Em
termos de impacto sobre nossa saúde, a carne contém muita gordura, muito
colesterol e pouca fibra, ao passo que os vegetais contêm pouca gordura, pouco
colesterol e muita fibra. Além disso, pesticidas, químicos e antibióticos
pulverizados em plantações são ingeridos pelos animais e ficam impregnados na
carne, em fenômeno conhecido como bio-amplificação. Com isso, uma dieta sem
carne reduz significantemente os níveis de colesterol, problemas cardíacos,
artrite, ácido úrico, gota, obesidade, diabetes relacionado a dieta,
constipação, calculo biliar, pressão alta e câncer.
Além
disso, há outras questões que são levadas muito a sério pelo praticante:
-
Aspecto ético: Ahimsa, ou
não-violência, é o princípio mais importante da filosofia ioguica e que leva o
praticante a não causar sofrimento a qualquer ser vivo, respeitando todos os seres.
Os animais criados pela indústria alimentícia passam a vida confinados e
controlados e o momento do abate é carregado de medo e de dor. Do ponto de
vista do Yoga, o homem não tem o direito de usar sua supremacia para dominar e
matar seres que sejam vulneráveis.
-
Aspecto energético: todo medo e toda dor sofridos por um animal abatido são
incorporados ao nosso corpo no momento da ingestão da carne, tornando nossas
próprias emoções difíceis de controlar.
-
Aspecto ambiental: a criação de gado é cara, dispendiosa, provoca devastações e
consome grandes quantidades de água. Anualmente, áreas gigantescas são transformadas
em pasto. Não menos importante, o gado bovino emite enormes quantidades de
metano, gás que é um dos maiores responsáveis pelo aquecimento global.
-
Aspecto político: em nosso planeta, a fome assola quase 1 bilhão de pessoas. A
desnutrição causa a morte de uma criança a cada 2 segundos e de 60 milhões de
pessoas todos os anos. Entretanto, nos países pobres a comida tem sido sistematicamente usada para alimentar animais de
corte, que depois são exportados para países mais ricos. Enquanto isso, nos
países desenvolvidos o consumo de carne leva a altos índices de obesidade,
contribuindo para o consumo indiscriminado de produtos e medicamentos para
emagrecer. Se todo o alimento produzido na terra fosse destinado à alimentação
humana, seria o fim da fome no mundo.